A decisão dos Estados Unidos de impor sobretaxas adicionais de 25% sobre mais de 3 mil produtos brasileiros, medida que começa a valer no dia 22, já ultrapassou o campo econômico e entrou de vez no tabuleiro político. No front oficial, interlocutores do governo classificaram a investigação norte-americana como “frágil” e baseada em documentos da OCDE considerados desatualizados. No entanto, o timing da medida — em ano eleitoral e após conversas envolvendo filhos do ex-presidente Jair Bolsonaro com autoridades norte-americanas — reforça a interpretação de que há um pano de fundo político capaz de alimentar narrativas de campanha.

Pesquisas recentes mostram o peso dessa dimensão política. O levantamento Genial/Quaest, divulgado logo após a confirmação da taxação, apontou queda na intenção de apoio ao senador Flávio Bolsonaro até mesmo entre eleitores bolsonaristas, de 88% para 81% entre junho e o novo levantamento. Além disso, 51% dos entrevistados concordam que a família Bolsonaro é a responsável pelo tarifaço, enquanto 30% entendem que Flávio tentou reverter as tarifas. Na prática, dados como esses transformam uma medida de comércio internacional num ativo de campanha para adversários e num problema de credibilidade para o núcleo bolsonarista.

Do ponto de vista econômico, há sinais de mitigação: relatório da consultoria Eurasia Group ressalta que a ampliação da lista de isenções — que subiu de quase 1,7 mil para pouco mais de 2,1 mil produtos — reduz o impacto imediato sobre o comércio, já que muitos bens relevantes ficaram fora da alíquota de 25%. A consultoria lembra, ainda, que produtos sob sobretaxa de 12,5% relativos a alegações de trabalho forçado mantêm competitividade em razão de aplicação similar a outros parceiros dos EUA. Mas essa atenuação técnica não apaga a interpretação política que os eleitores absorvem em período de campanha.

A combinação entre ameaça direta a setores relevantes (carne, café, suco, pescado e siderurgia, entre outros citados por consultorias), a repercussão das pesquisas e a narrativa oficial de fragilidade da investigação expõe uma vulnerabilidade política do bolsonarismo. Para o governo Lula, a medida oferece linha de ataque à gestão anterior e espaço para vincular a pauta externa a falhas de condução. Para os bolsonaristas, a urgência será transformar danos externos em resposta doméstica crível — algo que, até aqui, tem mostrado dificuldades. No curto prazo, o efeito mais relevante deve ser político: pressão sobre candidaturas, risco de erosão de apoios e necessidade de reação estratégica, mesmo que o impacto econômico final venha a ser parcialmente suavizado.