A ideia de soft power aplicada ao universo eleitoral pode soar paradoxal quando associada ao bolsonarismo, mas o caso de Flávio Bolsonaro merece atenção: em vez de confrontação ideológica, a campanha aposta numa atração imagética para seduzir eleitores voláteis do centro. O vídeo que viralizou nas redes mostra o senador dirigindo, priorizando família e evitando tons de confronto — uma tentativa deliberada de revestir sua candidatura com previsibilidade e normalidade institucional.

A pesquisa Realtime Big Data torna o movimento politicamente relevante. No primeiro cenário, Lula aparece com 40% e Flávio com 34%; em outra simulação, o petista recua a 38% contra 33% do opositor. Esses números expõem uma oferta fragmentada ao centro: nomes como Ronaldo Caiado e Romeu Zema pontuam marginalmente, sem formar um polo alternativo capaz de consolidar a disputa. Nesse ambiente, a estratégia de Flávio não depende de adesão ideológica ampla, mas da captura do descontentamento difuso — um soft power que opera pela imagem e pela persuasão, não pela doutrina programática.

A composição da campanha reforça o perfil técnico e moderado: embora busque um marqueteiro oficial, a gestão das redes sociais já é liderada por Marcos Carvalho, e a coordenação política tem a marca do senador Rogério Marinho (PL-RN). O efeito prático é uma campanha menos militante e mais voltada à classe média e ao eleitor indeciso, oferecendo respostas simplificadas sobre eficiência administrativa e responsabilidade fiscal — temas que ressoam entre quem tem dúvidas sobre a governabilidade e a economia.

Politicamente, o avanço dessa narrativa amplia desgaste sobre a coalizão governista. Se o eleitor de centro continua a migrar por razões de insatisfação com inflação e percepção de escândalos, o custo para Lula será concreto: redução da margem no primeiro turno, pressão por realinhamentos programáticos e necessidade de reaproximação com o eleitor moderado. A fragmentação do campo alternativo também não beneficia a construção de maiorias estáveis no Congresso, o que pode complicar a capacidade de aprovar reformas e preservar responsabilidade fiscal.

O diagnóstico é claro: a polarização persistente mantém o país preso a uma disputa de imagens. O soft power de Flávio Bolsonaro não substitui um projeto de governo detalhado, mas amplia seu potencial eleitoral ao explorar um vácuo no centro. Para o campo governista, a resposta exige não só retórica, mas medidas concretas que reconquistem confiança econômica e política — do contrário, a disputa de 2026 seguirá sendo definida mais por flutuações de opinião do que pela formação de maiorias sólidas.