A Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal condenou, por unanimidade, o ex-deputado Eduardo Bolsonaro pelos crimes de coação no curso do processo e obstrução de Justiça. O colegiado aplicou pena de 4 anos e 2 meses de reclusão, em regime inicialmente semiaberto, além de 50 dias-multa calculados em duas vezes o salário mínimo, totalizando cerca de R$162 mil. Como consequência administrativa e política, o acórdão prevê perda do cargo de escrivão da Polícia Federal e inelegibilidade por oito anos — efeito que se soma à cassação do mandato, ocorrida pela Câmara em dezembro de 2025 por excesso de faltas. Cabe recurso da decisão.
No voto do relator, o ministro Alexandre de Moraes considerou robusto o conjunto probatório apresentado pela Procuradoria-Geral da República: vídeos, postagens e mensagens que teriam demonstrado ações coordenadas para pressionar o Judiciário e envolver parceiros internacionais. A denúncia aponta que Eduardo Bolsonaro articulou retaliações externas — entre elas sanções econômicas e restrições de vistos — na tentativa de evitar o prosseguimento e o desfecho do processo conhecido como trama golpista, no qual o ex-presidente Jair Bolsonaro foi condenado a 27 anos de prisão por liderar organização que atentou contra a democracia. Moraes rejeitou a tese de imunidade parlamentar, afirmando que atos sem relação com o exercício do mandato não se enquadram na prerrogativa e criticou a postura de permanecer fora do país para esquivar-se da responsabilização.
O próprio modelo de pressão internacional descrito no processo teve impactos concretos, segundo as peças do Ministério Público: aplicação de medidas que incluíram sobretaxas sobre produtos brasileiros, suspensão de vistos de parte do Supremo e até a inclusão de autoridades em listas de restrição financeira — episódios que, se comprovados, configuram um efeito direto entre conduta e dano econômico e institucional. Para o tribunal, a utilização de influência externa para constranger a Suprema Corte rompe com limites fundamentais da atividade política e afeta a estabilidade das instituições.
Politicamente, a decisão tem efeitos imediatos e simbólicos. A condenação unânime acende alerta para a estratégia do bolsonarismo estrutural: além do custo jurídico individual, o veredito amplia o desgaste da narrativa de enfrentamento às cortes e complica a atuação pública de lideranças próximas ao ex-presidente. No plano institucional, o caso reforça o limite entre crítica política legítima e ações que se traduzem em ataques às engrenagens do Estado. Resta agora o trâmite recursal, que pode postergar os efeitos definitivos; mas, no curto prazo, a sentença agrava a pressão sobre aliados e redes que buscaram, na prática, internacionalizar um conflito interno.