A Corte Suprema viveu um dia de fortes atritos depois que o presidente do STF, Edson Fachin, determinou o fim do sigilo sobre o inquérito conhecido como caso Master. A liberação parcial de documentos — autorizada em trechos pelo relator André Mendonça — desencadeou uma série de ofícios entre ministros e uma dura reação de Alexandre de Moraes, que acusou o colega de selecionar subjetivamente o que deveria ser tornado público. O episódio remete diretamente ao debate sobre transparência e ao risco de decisões fragmentadas que dificultem a apreciação integral dos fatos pelo plenário.

Entre as peças divulgadas, consta autorização para a Polícia Federal investigar o senador e pré-candidato à Presidência Flávio Bolsonaro por repasses do dono do Banco Master, Daniel Vorcaro, relacionados ao filme Dark Horse. Ainda assim, Mendonça manteve sob sigilo importantes documentos do inquérito — segundo Moraes, cerca de 180 peças continuaram inacessíveis — o que motivou o ofício do ministro contra o levantamento parcial. Fachin, pressionado pela Procuradoria-Geral da República e por pedidos como o do advogado Cristiano Zanin, acabou reforçando a necessidade de que o conjunto probatório seja tornada íntegro à sociedade e ao tribunal.

No centro da controvérsia estão duas frentes: a técnica, sobre como garantir que o plenário examine todas as provas de maneira coordenada; e a política, sobre a percepção de imparcialidade da Corte. Moraes foi taxativo ao afirmar que a seleção de arquivos por parte de Mendonça poderia favorecer "determinado grupo político" — acusação grave que ele justificou com registros do sistema processual mostrando peças ainda sigilosas. Mendonça, por sua vez, afirmou que não houve ocultação, explicando que parte do material está sob custódia da Polícia Federal e que cópias entregues ao gabinete permanecem lacradas, sem acesso da equipe do STF.

As consequências são práticas e institucionais. Com a pauta da próxima sessão já apontando para a possibilidade de abertura de investigação contra Moraes por suposto vínculo com Vorcaro, a divulgação fragmentada complica a avaliação colegiada e aumenta a apreensão entre ministros sobre risco de decisões contraditórias. Para o tribunal, o desafio agora é restaurar um grau de previsibilidade processual: a liberalização seletiva de sigilos não só amplia desgaste interno, como também alimenta narrativas políticas sobre parcialidade. Resta ao presidente do STF a tarefa de harmonizar as exigências de transparência com a segurança jurídica do processo, sob o risco de que a disputa institucional tolha a credibilidade do julgamento que se avizinha.