Nos últimos dias, sinais de distensão entre parte do Supremo Tribunal Federal e a campanha do presidenciável Flávio Bolsonaro vêm sendo interpretados como uma tentativa de neutralizar a ofensiva por impeachment de ministros. Fontes com trânsito entre os dois universos relatam ao Correio conversas reservadas — a mais relevante teria ocorrido entre Flávio e o ministro Gilmar Mendes — que, na leitura de aliados, abriram espaço para um recuo prático na escalada institucional.
A articulação não se restringe a diálogos discretos. Ainda que a interlocução entre o senador Rogério Marinho, coordenador da campanha, e o presidente do STF, Edson Fachin, tenha acontecido formalmente antes do segundo turno, a audiência só foi concretizada agora, e trouxe as mesmas reclamações já ventiladas pelo grupo bolsonarista contra Alexandre de Moraes. Esse quadro coloca os governistas em posição ambígua: enquanto parte da base fala em impeachment como instrumento legítimo, outros optam por buscar canais institucionais de pressão e negociação.
Decisões recentes do próprio tribunal alimentam a leitura de acomodação. Gilmar Mendes determinou o arquivamento de pedido da Polícia Federal para abrir inquérito contra o deputado Alfredo Gaspar, aceitando parecer da Procuradoria-Geral da República sobre ausência de elementos mínimos. Em outro episódio que repercutiu na campanha, Alexandre de Moraes autorizou a progressão de regime de Débora Rodrigues, conhecida como Débora do Batom, medida vista por bolsonaristas como sinal de afrouxamento. Esses atos têm sido lidos tanto como aplicação técnica do direito quanto como gestos com impacto político.
A reação mais dura vem dos quadros mais intransigentes: parlamentares aliados, como Nikolas Ferreira, negam que exista qualquer acordo e prometem manter a agenda do impeachment contra Moraes, condicionando-a à existência de suposto crime de responsabilidade. Do lado mais extremo do novo Congresso, o senador eleito Marcel van Hattem já sinalizou intenção de iniciar procedimentos contra Gilmar a partir de fevereiro de 2027. Ou seja: enquanto o Supremo indica espaço para distensão, há atores que procuram transformar desgastes em projeto político de longo prazo.
O efeito prático dessa convergência é duplo. Para o STF, gestos de pacificação podem reduzir a escalada institucional e preservar o funcionamento da Corte — mas acarretam o risco de percepção pública de acomodação ou favorecimento, o que também corrói legitimidade. Para a campanha e a oposição bolsonarista, a aparente trégua complica uma narrativa que conta com o impeachment como instrumento de resposta: poupa atritos imediatos, porém impõe custo político interno, pressionando por manutenção da unidade entre moderados e radicais. Em Brasília, o movimento aponta para uma reconfiguração tática — não um fim da disputa — e acende um novo foco de incerteza para 2026.