Em um intervalo de 48 horas após o primeiro turno, ministros do Supremo Tribunal Federal deram decisões que o meio político passou a ler como enfraquecimento do tom de confronto com o bolsonarismo. As medidas, assinadas por Alexandre de Moraes e Gilmar Mendes, atingem diretamente figuras próximas ao ex-presidente e geraram interpretação de que o tribunal ajustou sua postura no pós-votação.
Alexandre de Moraes autorizou a progressão ao regime semiaberto de Débora Rodrigues dos Santos — conhecida como “Débora do Batom” — citando o cumprimento de requisitos legais, como atividades laborais e leitura durante a pena aplicada pelos atos de 8 de janeiro de 2023. Moraes também encaminhou ao procurador-geral da República novo pedido de visita do senador Flávio Bolsonaro a Jair Bolsonaro, abrindo caminho para reavaliar a proibição anterior. Ainda acompanhando parecer da PGR, o ministro arquivou investigação sobre Marcos do Val, Allan dos Santos, Oswaldo Eustáquio e Ednardo Raposo, depois que a Procuradoria considerou insuficientes as provas reunidas contra eles — situações em que a Polícia Federal havia apresentado indiciamentos por obstrução e incitação.
No mesmo período, Gilmar Mendes decidiu arquivar investigação sobre denúncia de estupro contra Alfredo Gaspar, então candidato a vice na chapa de Flávio Bolsonaro, apresentada pelo deputado Lindbergh Farias. Cada um desses atos tem fundamentos jurídicos próprios, mas a sucessão e o calendário das decisões chamaram atenção política por favorecerem personalidades ligadas ao campo bolsonarista em um momento sensível do calendário eleitoral.
O conjunto de medidas tem impacto político claro: reduz a tensão aberta entre parte da direita e o tribunal e oferece alívio circunstancial a aliados do ex-presidente. Ao mesmo tempo, o sincronismo das decisões levanta dúvidas sobre percepção de isenção e alimenta narrativa adversária de que o Judiciário pode recalibrar sua atuação conforme o clima político. Em termos práticos, as decisões atenuam argumentos de perseguição usados pelo bolsonarismo, mas também impõem ao STF a necessidade de gestos e explicações que preservem a credibilidade institucional no curto prazo.