A Polícia Federal concluiu o inquérito que apurou suspeitas de fraudes em licitações e desvios em contratos do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit) no Amapá e indiciou o empresário Breno Chaves Pinto — identificado como segundo suplente do presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP). No relatório encaminhado à 4ª Vara Federal de Macapá, a corporação aponta os crimes de associação criminosa, tráfico de influência e corrupção ativa. Também foi indiciado o superintendente regional do Dnit no estado, Marcello Linhares, por associação criminosa, violação de sigilo funcional e fraude à licitação. O caso segue agora para avaliação do Ministério Público Federal, que decidirá sobre eventual denúncia.
O conjunto probatório descrito pela PF inclui monitoramento de movimentações financeiras e interceptações. Em novembro de 2024, agentes acompanharam Chaves Pinto saindo de uma agência bancária com R$ 350 mil em espécie; na sequência, ele teria entrado em uma SUV vinculada a uma empresa de parentes de Alcolumbre. O sistema de prevenção a crimes financeiros identificou saques atípicos, e a investigação aferiu retiradas em dinheiro vivo superiores a R$ 3 milhões ao longo do período apurado. A Polícia Federal sustenta que esses saques ocorreram logo após pagamentos relativos a contratos públicos, o que foram qualificados no relatório como indícios de lavagem de dinheiro — tese que a defesa do empresário rebateu, alegando que os valores serviam para pagamentos de pessoal e prestadores.
Além do roteiro financeiro, a PF descreve influência política sobre a estrutura do Dnit no Amapá. Conversas anexadas ao inquérito teriam registrado interlocução direta entre o empresário e o superintendente sobre obras, licitações e liberação de empenhos. Em trechos do relatório, agentes relatam pedidos para que o suplente acionasse canais políticos para pressionar pela liberação de recursos. Auditorias da Controladoria-Geral da União (CGU) já haviam indicado lentidão na execução das obras da BR-156 e apontado possíveis irregularidades em contratos que somam R$ 60,2 milhões. Perícias nos processos licitatórios teriam identificado indícios de conluio, propostas fictícias e esquema para favorecer empresas predeterminadas, além de troca de documentos sigilosos entre servidores e representantes empresariais antes da publicação oficial das concorrências.
No plano político, o indiciamento coloca o entorno do presidente do Senado numa situação delicada. Alcolumbre divulgou nota negando qualquer relação com a 'atuação empresarial' do seu segundo suplente e afirmou que não interfere em decisões administrativas do Dnit, ressaltando que responde apenas pelos próprios atos. Ainda assim, a ligação orgânica entre o investigado e pessoas próximas ao senador, somada aos elementos materiais levantados pela PF, amplia desgaste e acende um sinal de alerta sobre governança e controle de gastos federais no Amapá. Se o Ministério Público oferecer denúncia, a narrativa oficial do Senado pode sofrer nova pressão, com reflexos na imagem pública e na interação entre o Legislativo e órgãos de infraestrutura.
O desfecho do processo no MPF e, eventualmente, na Justiça definirá o peso político e jurídico das acusações. Enquanto isso, o caso já força perguntas sobre a transparência na gestão de contratos rodoviários e sobre mecanismos de prevenção a conflitos de interesse em órgãos federais. Para o Dnit e para o próprio Senado, a investigação representa um teste de resposta institucional: caberá às autoridades esclarecer responsabilidades, adotar medidas administrativas quando cabíveis e dar respostas que reduzam as incertezas sobre a condução de obras essenciais à integração do Amapá.