O debate realizado nos estúdios da TV Globo, em São Paulo, escapou do recorte estritamente local e virou, na prática, um embate sobre os padrinhos federais de cada candidato. Ao longo de aproximadamente duas horas, Tarcísio de Freitas (Republicanos) e Fernando Haddad (PT) dedicaram a maior parte do tempo a defender e atacar os presidentes Jair Bolsonaro e Luiz Inácio Lula da Silva, transformando temas estaduais em extensão das disputas nacionais.

A nacionalização da disputa ocorre em momento sensível: pesquisas recentes, como o levantamento Atlas/Estadão, indicam Tarcísio com 53,3% e Haddad com 40,1% das intenções de voto, cenário que, na avaliação dos estrategistas, pode levar a uma vitória já no primeiro turno. Esse dado acende alerta para ambos os lados: para Tarcísio, a vantagem exige consolidar a narrativa sem se desgastar; para Haddad, amarrar a marca Lula a pautas locais é tentativa de reverter a tendência nas urnas.

No debate, passaram por cima de questões técnicas do Estado. Tarcísio reforçou a agenda fiscal e atribuiu a atrasos de obras, como o Rodoanel Norte e a Linha 6-Laranja, às consequências da Operação Lava Jato e a “vícios” apontados no passado, além de mencionar casos ligados a pessoas próximas ao PT. Haddad, por sua vez, citou medidas federais — da renegociação da dívida dos Estados ao apoio em investigações como a Operação Carbono Oculto — para sustentar que o governo federal tem papel direto no fôlego financeiro de São Paulo.

A escolha de nacionalizar o debate tem efeitos políticos claros: amplifica a polarização e reduz espaço para propostas técnicas estaduais, enquanto força os eleitores a definirem voto também por alinhamento com Brasília. A estratégia pode mobilizar bases, mas expõe os candidatos às vulnerabilidades de seus aliados e complica a narrativa oficial de ambos, exigindo, já na reta final, maior urgência em explicar como as promessas federais se traduzirão em resultados concretos para o cidadão paulista.