Com o prazo legal americano se aproximando — 15 de julho — o Palácio do Planalto já trabalha com a avaliação de que a imposição de uma tarifa adicional de 25% sobre produtos brasileiros é o cenário mais provável. Após meses de interlocução, o avanço das negociações não removeu a percepção de impasse: a administração norte-americana tem dado sinais públicos de que a distância entre as posições segue grande, o que levou o governo brasileiro a preparar opções para diferentes desfechos.

Na última sexta-feira o presidente Luiz Inácio Lula da Silva reuniu ministros no Planalto — entre eles o chanceler Mauro Vieira e o ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Márcio Elias Rosa — e orientou que todas as possibilidades de diálogo sejam esgotadas até o limite. A estratégia oficial é manter a via diplomática aberta; ao mesmo tempo, o governo classifica as medidas anunciadas pelos EUA como “injustas e injustificáveis” e afirma que não fará concessões em pontos considerados sensíveis, como ajustes ao sistema de pagamentos Pix.

Fontes do Planalto dizem que há tentativas de viabilizar uma última rodada de conversas com o representante comercial dos Estados Unidos, Jamieson Greer — interlocução que já ocorreu em quatro ocasiões desde a reunião entre Lula e o então presidente norte-americano, em maio. Ao mesmo tempo, declarações públicas do próprio USTR reforçaram a expectativa de uma decisão em curto prazo. No palco doméstico, a perspectiva de um “tarifaço” de 25% abre duas agendas simultâneas: medidas imediatas de mitigação para setores exportadores e uma articulação política para evitar custo econômico maior e desgaste adicional ao governo.

Analistas veem o episódio como algo além de uma disputa tarifária pontual. Para o cientista político Márcio Coimbra, a resistência de Washington reflete um acúmulo de divergências institucionais e geopolíticas — da proteção da propriedade intelectual à regulação do comércio digital — e aponta para perda de influência do Brasil na relação bilateral. No governo, a resposta prevista inclui avaliar exceções, manter negociações e, se necessário, adotar contramedidas previstas na Lei de Reciprocidade Econômica. A decisão americana testará a capacidade diplomática do Planalto e poderá impor custo econômico e político relevante a setores produtivos e à própria narrativa do governo sobre sua habilidade de proteger interesses nacionais.