A sequência de medidas adotadas por Washington — do chamado tarifaço contra produtos brasileiros à revogação do visto da embaixadora Maria Luiza Ribeiro Viotti, passando por contatos entre integrantes do governo Trump e aliados de Flávio Bolsonaro e tentativas de discutir a integridade das urnas — abriu uma frente diplomática que tem impacto direto no tabuleiro eleitoral. Essas iniciativas são percebidas pelo Planalto como ingerência, especialmente diante da condição colocada pelos EUA para restaurar o visto de Viotti, atrelada à nomeação de Daniel Perez como embaixador norte‑americano. Isoladas, as ações não decidem uma eleição; em conjunto, porém, criam um cenário que pode ser explorado politicamente pelo governo.
Para Lula, a escalada oferece uma oportunidade clara: transformar um conflito externo em disputa simbólica pela soberania, assumindo o papel institucional de chefe de Estado sob pressão de uma potência estrangeira. Esse enquadramento tende a mobilizar a militância, consolidar apoios entre setores democráticos e atrair eleitores moderados sensíveis a argumentos de autonomia nacional. Ao mesmo tempo, expõe Flávio Bolsonaro ao risco de ser associado a uma articulação internacional contra o Brasil, o que pode corroer seu apelo entre eleitores que rejeitam interferência externa. A crítica, todavia, não é isenta: o governo precisa calibrar a reação para não confundir defesa legítima de interesses nacionais com postura soberba ou decisões que agravem custos econômicos.
No nível estratégico, a iniciativa de figuras próximas a Trump e ao senador Marco Rubio busca reorganizar a direita continental, conter a presença econômica chinesa e fortalecer aliados conservadores — com Javier Milei representando essa nova face no Cone Sul. A participação de Milei no lançamento da candidatura de Flávio em São Paulo e os ataques a Lula e ao ministro Alexandre de Moraes já provocaram tensão bilateral entre Brasil e Argentina. Mas interesses comerciais, cadeias produtivas e o próprio Mercosul limitam o potencial de ruptura: penalizar o Brasil também gera custos para parceiros regionais. Nesse contexto, a postura do Itamaraty — mesmo defensiva — é uma resposta pragmática à realidade das interdependências.
Os números eleitorais mostram a complexidade do efeito político. A pesquisa Genial/Quaest divulgada recentemente mantém Lula à frente (39% a 30% no primeiro turno; 44% a 39% num eventual segundo), mas também registra recuperação de Flávio, que reduziu rejeição e recompos sua base de apoio. Essa recomposição, segundo análises internas, decorreu mais de fatores domésticos — a reaproximação com Michelle Bolsonaro e reações a restrições judiciais — do que do confronto com os EUA. Em suma: instrumentos econômicos e diplomáticos americanos são poderosos, mas não se traduzem automaticamente em influência eleitoral. Para ambos os lados, o desafio é político e estratégico: o governo deve usar a narrativa de defesa nacional sem transformar diplomacia em campanha permanente; a oposição precisa evitar a pecha de recorrer a apoios externos, que pode se voltar contra sua credibilidade nas urnas.