Com prazo até o dia 15 para tentar barrar uma sobretaxa proposta pelos Estados Unidos, o governo federal intensificou nos últimos dias as tratativas diplomáticas e o diálogo com o setor produtivo. O Escritório do Representante de Comércio dos EUA (USTR) realizou uma audiência pública em Washington na terça-feira sobre a medida, na qual o Brasil não teve representante oficial presente, enquanto multinacionais e entidades empresariais se manifestaram majoritariamente contra a elevação de tarifas.
Em Brasília, a estratégia oficial tem sido concentrar esforços em reuniões técnicas, telefonemas e interlocuções com autoridades americanas na tentativa de demonstrar ausência de fundamento na recomendação inicial do USTR, divulgada em 1º de junho. O Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços reforça que a orientação do presidente é manter o país na mesa de negociações até a conclusão do processo, priorizando o argumento técnico para evitar prejuízos às exportações e às cadeias produtivas.
Além da corrida diplomática, a pauta ganhou contorno político ao repercutir a participação do senador Flávio Bolsonaro na audiência do USTR. Em nota oficial, o Palácio do Planalto informou que, entre 78 inscritos para falar sobre o tarifaço, 63 se posicionaram contra e 15 a favor; das 44 intervenções de estadunidenses, 30 foram contrárias e 14 favoráveis; entre os 34 brasileiros inscritos, só o senador optou por não se manifestar contra, sugerindo o adiamento da medida. A avaliação oficial acusa-o de legitimar alegações contra empresários e de não negar o envolvimento de sua família em pedidos de intervenção anteriores.
O caso combina risco econômico e custo político: a perspectiva de uma sobretaxa de 25% acende alerta para exportadores e pressiona não só o governo, que precisa apresentar resultados técnicos num prazo curto, mas também a oposição, cuja iniciativa pode ser enquadrada como instrumento eleitoral. Se confirmada, a medida terá impacto direto em competitividade e faturamento de setores expostos. Nos próximos dias, o desfecho do processo nos EUA deve reverberar na agenda doméstica e na narrativa de campanha, testando a capacidade do Executivo de transformar interlocução diplomática em defesa concreta do comércio brasileiro.