O episódio em torno do chamado tarifaço dos Estados Unidos contra o Brasil revelou que a disputa deixou de ser apenas técnica para se transformar em arena política. A participação do senador Flávio Bolsonaro na audiência pública do USTR — e a postura de defesa do aumento tarifário — sinaliza que há um eixo ideológico cruzando as negociações que, em essência, deveriam priorizar a lógica econômica e as interdependências produtivas entre os dois países.

Os números citados pelo governo brasileiro ilustram essa tensão entre interesses: foram 335 manifestações de empresas e organizações brasileiras e norte-americanas, além de 30 de pessoas físicas. Entre grandes grupos e entidades que se posicionaram aparecem nomes como Coca‑Cola, Caterpillar, Tesla, Nestlé, JBS, WEG, CSN, Suzano, ADM, eBay, Siemens Energy, CNI, Fiesp, CNA e Câmara Americana de Comércio. O Itamaraty registrou que, entre 78 manifestações analisadas, 63 foram contra o pacote proposto e 15 a favor; entre 44 manifestações americanas, 30 eram contrárias e 14 favoráveis; do lado brasileiro, das 34 manifestações, apenas a de Flávio Bolsonaro defendia o tarifaço. A proposta de Washington prevê sobretaxas da ordem de 25%, com possibilidade de mais 12,5% em investigação separada.

O argumento econômico trazido pelas entidades é claro: o aumento tarifário não atinge só produtos finais concorrentes, mas insumos e componentes que alimentam cadeias integradas, muitas vezes intrafirma, e que foram reorganizadas ao longo de décadas. Setores americanos advertiram para custos adicionais, pressões inflacionárias e perda de competitividade. Em termos práticos, itens como cortes de carne para hambúrgueres, suco de laranja e café — citados pelos setores produtivos — mostram a interdependência que uma medida protecionista tende a desorganizar.

O choque entre a defesa técnica do Itamaraty e a teatralidade política do ato parlamentar acende um alerta: quando pressões eleitorais e posicionamentos ideológicos se sobrepõem ao lobby empresarial e à avaliação técnica, a negociação fica mais difícil e o custo político aumenta. Para Brasília, a resposta passa por articular a voz do setor privado e demonstrar os riscos econômicos do tarifaço; para Washington, as manifestações mostram que a própria elite empresarial americana teme as consequências domésticas de uma escalada protecionista. O desafio agora é transformar esse amplo coro empresarial em vantagem diplomática, evitando que o debate seja reduzido a um símbolo eleitoral.