A discussão sobre a possibilidade de os Estados Unidos aplicarem uma tarifa de 25% sobre produtos brasileiros — e suas dúvidas públicas sobre o sistema de pagamentos Pix — deixou de ser apenas uma questão comercial e virou trincheira da pré‑campanha presidencial. No centro do embate está o senador Flávio Bolsonaro (PL), cuja aproximação a Donald Trump passou a ser explorada por opositores como evidência de alinhamento que poderia custar politicamente. O episódio deu ao governo de Luiz Inácio Lula da Silva oportunidade política para conectar a ofensiva americana a uma suposta submissão a interesses externos.

Entre aliados do senador, a leitura é outra: a viagem aos Estados Unidos e o acesso ao círculo de Trump seriam demonstração de influência e capacidade de atuação em segurança e agenda externa, apontando conquistas como a inclusão do PCC e do Comando Vermelho em listas de organizações terroristas dos EUA. Já a base governista trata a coincidência entre a aproximação política e a abertura do ataque comercial como elemento útil para construir narrativa de fragilidade e de mercantilização de interesses nacionais — argumento que desloca o debate para soberania e prestações de contas na política externa.

No Congresso, a disputa de versões intensificou-se. Deputados e senadores do PL vendem a ideia de que o governo tenta instrumentalizar um tema diplomático complexo para desviar a atenção de episódios sensíveis que vinham ganhando espaço, como o caso Master e o financiamento ao filme Dark Horse. Do outro lado, parlamentares governistas avaliam que a narrativa de submissão a Washington tem apelo popular e pode corroer fragilmente a estratégia de campanha de Flávio, sobretudo se a oposição mantiver a capacidade de associar sua imagem a uma política externa de menor autonomia.

Especialistas consultados na pré‑campanha apontam que o risco existe, mas não é automático: a percepção do eleitor dependerá de qual narrativa predominar até as convenções. Há espaço tanto para a leitura que responsabiliza erros da diplomacia atual quanto para a interpretação que vê incoerência entre um discurso nacionalista e o estreitamento de relações com um governo estrangeiro. Politicamente, o episódio reforça a vocação da disputa por temas de soberania e economia, e obriga campanhas a recalibrar mensagens — seja para neutralizar o desgaste, seja para explorar o recado protecionista que ecoa entre parcelas do eleitorado.