O ex-presidente Michel Temer lançou o documento 'Estrada para o Futuro', um compêndio de propostas destinado a orientar candidatos na disputa de 2026. Elaborado com contribuições de nomes como Blairo Maggi, Nelson Jobim, Flávia Piovesan, José Pastore, Gabriel Chalita e Adriano Pires, o texto busca deslocar o debate eleitoral do confronto pessoal para o confronto de projetos. No diagnóstico inicial, Temer afirma que a polarização evoluiu para uma 'radicalização' que teria corroído a civilidade política, e propõe como remédio um 'Pacto Republicano' envolvendo os Três Poderes, sociedade civil e oposição nos primeiros dias de um eventual novo governo.

No plano prático, o documento prioriza segurança pública e responsabilidade fiscal. Entre as medidas sugeridas estão a recriação do Ministério da Segurança Pública, a formação de um sistema nacional integrado de inteligência, a criação de uma Agência Nacional de Combate ao Crime Organizado e a instituição de uma Guarda Nacional permanente. Em paralelo, propõe-se ampliação do sistema penitenciário federal, fortalecimento das fronteiras e uso intensificado de inteligência artificial no enfrentamento do crime. No campo econômico, há ênfase em reduzir a dívida pública, manter mecanismos de controle de despesas e ampliar previsibilidade regulatória, com propostas específicas para o setor energético coordenadas por Adriano Pires, incluindo avaliação sobre a fusão de Aneel e ANP.

Na área social e educacional, Gabriel Chalita assina recomendações pela educação como política de Estado: expansão gradual do ensino em tempo integral, pacto nacional pela infância e valorização dos professores. Denis Rosenfield contribui defendendo que programas de transferência de renda sejam vistos como instrumentos de transição, voltados à qualificação e autonomia dos beneficiários. O leque de propostas exposto pelo ex-presidente é amplo e técnico, buscando apresentar um roteiro de governabilidade e planejamento de longo prazo, em linha com a defesa de previsibilidade que o documento invoca ao comparar-se a marcos históricos de planejamento.

Politicamente, a iniciativa tem dois efeitos claros. Primeiro, tende a recompor um espaço de agenda centrista, oferecendo pontes temáticas tanto para candidatos de centro-direita quanto para setores moderados da oposição. Segundo, acende alerta sobre a centralidade da segurança e da disciplina fiscal na campanha de 2026, pressionando concorrentes a anteciparem respostas concretas. Ao mesmo tempo, a implementação das propostas esbarra em desafios práticos e políticos: é preciso maioria parlamentar para recriar pastas, aprovar mudanças institucionais e garantir recursos, fatores que levantam dúvidas sobre viabilidade e custo fiscal. Em suma, o documento funciona como um manual de propostas e como sinal político — reforça um diagnóstico conservador-liberal sobre prioridades do país, mas não elimina o debate sobre sua aplicabilidade no complexo jogo institucional brasileiro.