A alegoria de Terra em Transe — obra de Glauber Rocha que retrata instituições aparentes e um país à beira do delírio político — reaparece como referência para descrever o atual impasse no Supremo Tribunal Federal. O que começou como uma disputa concreta sobre a direção da Polícia Federal e procedimentos investigativos contagia o conjunto da Corte: decisões individuais, sobreposições de competência e acertos recíprocos entre poderes produziram um quadro de confusão institucional.

O caso do Banco Master e a sequência de ações tomadas por Alexandre de Moraes, André Mendonça e Flávio Dino extrapolaram a dimensão técnica da investigação. Mendonça determinou afastamentos na cúpula da PF; Dino buscou reverter essas medidas; e Moraes encaminhou à Presidência do STF documentos remetidos pela PF para sustentar pedido de apuração sobre a atuação do próprio procurador-geral. No meio do labirinto jurídico, ficaram envolvidos a PGR, a Polícia Federal e ministros que, ao desautorizar uns aos outros, corroem a previsibilidade da Corte.

Diante do impasse, o presidente do STF, Edson Fachin, assumiu a mediação institucional: suspendeu decisões conflitantes, manteve no cargo o diretor-geral apontado por Mendonça e condicionou novas medidas contra integrantes da Corte a sua autorização, além de levar as questões ao Plenário. A iniciativa busca recompor unidade de comando e restaurar a colegialidade, mas também revela um sintoma preocupante: quando o presidente precisa interceder para impedir que ministros determinem medidas entre si, a autoridade institucional sofre desgaste e a litigiosidade interna passa a pautar a agenda pública.

As consequências vão além do tribunal. A episodicidade das decisões e os vazamentos seletivos que permeiam o caso alimentam desconfiança sobre a capacidade das instituições de atuar de forma técnica e impessoal. Politicamente, a crise amplia desgaste para atores centrais — PGR, chefia da PF e ministros — e complica a construção de uma narrativa de estabilidade institucional, elemento essencial para governabilidade e para a confiança dos mercados e da sociedade.

A saída proposta por Fachin é procedural: levar o conflito ao Plenário e restaurar regras claras de atuação coletiva. Resta ver, porém, se isso será suficiente para desfazer o transe institucional. Sem sinais consistentes de autofiscalização e limites claros entre decisões individuais e competência colegiada, o Supremo corre o risco de ver sua autoridade diluída — com impacto direto sobre o equilíbrio entre poderes e sobre a percepção pública do Judiciário.