A Justiça Eleitoral viveu uma reviravolta que aprofundou divisões internas nesta campanha de segundo turno: o presidente do TSE, Kassio Nunes Marques, determinou a suspensão do canal de WhatsApp 'Exército do Lula', criado pelo deputado André Janones e com milhões de inscritos, atendendo a pedido da campanha de Flávio Bolsonaro. Em seguida, o corregedor-geral eleitoral e relator do caso, Ricardo Villas Bôas Cueva, reverteu a medida e autorizou o funcionamento do canal, condicionando, entretanto, a não publicação de conteúdos já reconhecidos como ilícitos pela Corte e remetendo a questão ao plenário.
O episódio revela duas frentes de tensão. De um lado, a utilização de poder monocrático pela Presidência do tribunal para interferir diretamente em matéria sensível — medida que críticos qualificaram como excessiva e com potencial viés político. De outro, a reação do relator, que apontou falha procedimental e resistência a decisões presidenciais que atropelam a competência jurisdicional designada. Especialistas ouvidos avaliaram que uma atuação do porte exigiria fundamentação robusta dada a escala do canal e ao impacto sobre liberdade de expressão e disputa eleitoral.
Politicamente, a troca de decisões amplia desgaste institucional. Para o governo e seus aliados, a suspensão foi retratada como censura, alimentando narrativa de intromissão da Justiça no pleito; para a oposição, a reversão parece sinal de leniência com a disseminação de desinformação em massa. Esse jogo de sinais complica a narrativa oficial de imparcialidade do tribunal e acende alerta sobre como decisões judiciais serão percebidas pelo eleitorado. Na prática, a mudança de rumos dificulta a aplicação de sanções claras e pode estimular nova rodada de litigância — com riscos de judicialização crescente das comunicações políticas e de desgaste para o próprio TSE.
O próximo passo é técnico e político: o plenário terá de deliberar sobre critérios objetivos para atuação em canais digitais de grande alcance e sobre limites entre moderação de conteúdo e censura. Além disso, há uma pressão operacional sobre plataformas para executar decisões contraditórias em curto prazo. Para partidos e candidatos, o episódio sinaliza que estratégias de mobilização digital podem virar terreno litigioso e que decisões da Corte terão impacto direto na narrativa de campanha — com possíveis reflexos já nas próximas eleições e no ambiente institucional da Justiça Eleitoral.