O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) devolveu ontem a Flávio Bolsonaro (RJ) o registro como candidato do PL à Presidência, em decisão assinada pelo presidente da Corte, ministro Kássio Nunes Marques. A medida encerra o episódio iniciado com a inclusão do senador no partido Missão — uma filiação que o próprio tribunal qualificou como irregular — e determina à Polícia Federal a abertura de inquérito para identificar os responsáveis pela inscrição indevida.

A corte esclareceu que a inclusão não decorreu de um 'hackeamento' do sistema nacional de filiações, mas sim do uso de credenciais do Missão por terceiros. O entendimento técnico do TSE desmonta imediatamente a versão, difundida por apoiadores, de que houve comprometimento sistêmico da Justiça Eleitoral. Ainda assim, a mobilização política em torno do caso foi intensa: bolsonaristas usaram a narrativa para questionar a idoneidade do processo e o próprio senador chegou a afirmar, em vídeo, que o "sistema" buscaria impedir sua candidatura.

Do lado do Missão, Renan Santos alegou que a legenda avisou o gabinete de Flávio sobre a filiação em 2 de agosto e tentou cancelar o registro, sem sucesso no tribunal naquele momento. A sigla divulgou evidências de notificações ao e‑mail oficial do senador e deu detalhes técnicos sobre mensagens e cliques que teriam confirmado parte do procedimento. Na tentativa de fechar fileiras, a coordenação de campanha de Flávio, com o senador Rogério Marinho, pediu punição ao autor da fraude, enquanto o próprio candidato convocou militância a um ato no Rio.

O episódio tem consequências políticas claras. Primeiro, expõe fragilidade operacional nas credenciais partidárias e acrescenta um elemento de inquietação ao calendário eleitoral, exigindo apuração rápida para evitar contaminação de narrativas eleitorais. Segundo, a decisão do TSE empurra a disputa do terreno dos mitos — a versão do ataque ao sistema — para o jurídico, com potencial de desgastar a campanha bolsonarista caso a investigação aponte negligência na guarda de acessos ou responsabilidades internas. Por fim, a Corte neutralizou, por ora, a tentativa de impedir a atuação eleitoral de Flávio, mas transferiu o fio da disputa para a esfera penal e da reputação, onde eventuais desdobramentos poderão cobrar preço político e operacional no jogo de 2026.