A quatro meses do pleito, o UNICEF do Brasil lançou um apelo direto a presidenciáveis e candidatos a governos estaduais: assumam, em público, compromissos para proteger meninas e meninos. A agência, presente no país há mais de 75 anos, reforça que o investimento na infância e na adolescência é condição básica para o desenvolvimento, mas alerta que avanços em saúde e educação convivem com índices elevados de violência. Entre as estatísticas citadas, cerca de 5 mil crianças e adolescentes são assassinados por ano; meninos negros são maioria entre as vítimas fatais externas; e a exposição online e a violência sexual seguem como problemas persistentes — temas que já motivam projetos de lei, como a proposta de incluir o crime de pedofilia no Código Penal.
O UNICEF propõe três eixos que deveriam constar nos programas de governo: enfrentar a violência doméstica com políticas de apoio à parentalidade e fortalecimento de vínculos; combater a violência extrema e o racismo, com foco na proteção de meninos negros de periferia e no combate à misoginia; e garantir recursos públicos, com transparência e aplicação baseada em evidências. No site da agência há sugestões práticas que podem ser incorporadas a planos de governo, e o representante Joaquin Gonzalez-Aleman reiterou a missão de garantir direitos e proteção para cada criança. A proposta é técnica, mas assume desde o início uma dimensão política: não basta prometer — é preciso detalhar como serão pagos e fiscalizados os programas.
Do ponto de vista eleitoral e fiscal, o apelo do UNICEF acende um alerta para candidatos e partidos. Cumprir compromissos dessa natureza exige prioridade orçamentária, mecanismos de governança e indicadores mensuráveis — escolhas que confrontam teses de austeridade pouco seletiva e que podem gerar custo político para quem prometer sem apresentar fontes de financiamento. Há também consequência institucional: o debate força executivos e legislativos a explicitar como pretendem alinhar segurança pública, políticas sociais e ações afirmativas para reduzir mortes e violações que atravessam raça, gênero e território. Ignorar esses elementos transforma declarações de intenção em retórica vulnerável a críticas e a judicializações futuras.
Em ano de campanha, o apelo do UNICEF não pode ser tratado como pauta menor ou expediente de marketing. Jornalismo, sociedade civil e órgãos de controle têm papel central em exigir que compromissos venham com metas, prazos e planos de execução. Caso contrário, o eleitor verá promessas sem correspondência orçamentária — e a própria proteção infantil continuará a pagar o preço da negligência política. O desafio anunciado pela agência é, ao mesmo tempo, uma oportunidade para candidatos demonstrarem responsabilidade e para o eleitor cobrar resultados mensuráveis.