O Unicef intensificou nas últimas semanas um apelo aos atores políticos em ano eleitoral, ao publicar uma carta aberta dirigida a candidaturas à Presidência e aos governos estaduais. O documento se apoia em dados do próprio Unicef e do Fórum Brasileiro de Segurança Pública: entre 2021 e 2023 o país registrou cerca de 15 mil mortes violentas intencionais e mais de 164 mil casos de estupro envolvendo vítimas de 0 a 19 anos. A maior parte das vítimas é adolescente, do sexo masculino e negra; 90% das mortes concentram‑se entre quem tem 15 e 19 anos.
O apelo do Unicef lembra também que o Brasil conta com legislação avançada — o Estatuto da Criança e do Adolescente completa 36 anos e neste ano foi sancionado o ECA Digital —, mas enfatiza que a grande lacuna é a implementação. A organização pede que os candidatos firmem três compromissos públicos para fortalecer proteção, prevenção e resposta integrada; o próprio documento observa que quase todas as propostas de campanha privilegiam medidas reativas em detrimento de políticas de prevenção sistemáticas.
Do ponto de vista político, o gesto do Unicef acende alerta para as campanhas: a questão da segurança e da proteção infantil tem potencial para gerar desgaste político para quem não apresentar planos concretos e custos previstos. Prevenção exige coordenação federativa, investimento em serviços sociais, educação e segurança pública e mecanismos de monitoramento — exigências que têm impacto direto nas prioridades orçamentárias dos próximos governos.
O recado final da carta é claro: não basta reafirmar compromissos legais — é preciso detalhar metas, cronogramas e fontes de financiamento. Em ano eleitoral, a exigência por propostas plausíveis e verificáveis coloca pressão sobre candidatos e governos estaduais, e transforma a proteção da infância em tema central do debate público, com possíveis repercussões eleitorais e institucionais caso a resposta permaneça predominantemente reativa.