O economista Gustavo Pessoa, professor da FGV e pesquisador em riscos do sistema financeiro, figura como o único brasileiro inscrito até o momento na audiência pública do Escritório do Representante de Comércio dos EUA (USTR), que analisa a aplicação de tarifas de 25% sobre produtos brasileiros. A consulta, com sessão prevista para 6 de julho, trata de temas que vão do desmatamento e pirataria ao surpreendente foco no sistema de pagamentos Pix.
Pessoa justifica a participação como contribuição técnica: quer demonstrar que o Pix deixou de ser mero instrumento de pagamento para se tornar uma infraestrutura de pagamentos com implicações para segurança, resiliência e operação do mercado. O economista também destaca mudanças no papel do Banco Central — que hoje regula e opera sistemas — e pede mais transparência sobre custos e capacidade operacional, numa referência às limitações orçamentárias já apontadas pela presidência da autarquia.
Que um acadêmico precise ser a voz brasileira em uma audiência internacional relevante acende alerta e amplia dúvidas sobre a coordenação oficial na defesa dos interesses do país. A ausência, até aqui, de representatividade governamental ou empresarial mais ampla pode enfraquecer a capacidade de rebater interpretações externas que eventualmente proponham barreiras comerciais.
Além do efeito imediato sobre o comércio, o episódio abre questionamentos políticos internos: se o Pix é reconhecido como infraestrutura crítica — usado em cerca de 53% das transações no país —, a defesa técnica precisa vir acompanhada de uma estratégia diplomática e administrativa. As inscrições para manifestações ficam abertas até 22 de junho; o resultado do processo do USTR pode ter custo econômico e político, dependendo de como Brasília responderá ao debate.