Documentos e mensagens obtidos pela Polícia Federal colocam sob nova luz a relação profissional entre o escritório da família do ministro Alexandre de Moraes e o dono do Banco Master, Daniel Vorcaro. Em conversas datadas de janeiro de 2024, a advogada Viviane Barci, esposa do ministro, enviou pelo WhatsApp uma minuta de contrato de honorários ao empresário — segundo os registros, no dia 17 — e recebeu resposta cinco dias depois para ajustar detalhes sobre assinatura. O acordo, originado em janeiro de 2023, previa pagamento total de R$ 129 milhões, equivalente a R$ 3,6 milhões mensais por três anos, para atuação diante do Banco Central, da Receita Federal e do Congresso Nacional.

Fontes oficiais e dados da Receita indicam que o escritório Barci de Moraes Associados já recebeu R$ 80,2 milhões entre 2024 e 2025, antes da suspensão dos repasses motivada pela liquidação do banco. O próprio escritório prestou um balanço das atividades contratadas: 94 reuniões (79 presenciais na sede do banco, 13 com a presidência e duas por videoconferência) e 36 pareceres em áreas que vão do regulatório ao trabalhista e proteção de dados. Procurado, o escritório informou que não comentará o caso. A prova documental saiu da extração do celular de Vorcaro, apreendido em novembro de 2025 na primeira fase da Operação Compliance Zero; o material integra agora inquérito que também apura o vazamento de informações sigilosas sobre a família do ministro.

Os elementos divulgados pela investigação e confirmados por fontes da PF trazem, além do fato em si, um conjunto de implicações políticas e institucionais. Ainda que não se possa presumir ilegalidade apenas pelas mensagens, a proximidade — concreta e documentada — entre a família de um ministro do Supremo e uma instituição que precisava de defesa regulatória e fiscal suscita dúvidas sobre percepção de conflito de interesses e sobre a blindagem reputacional do magistrado. A Receita Federal já havia sinalizado que o valor dos honorários destoava da presença pública da advogada em processos envolvendo o banco, o que alimenta questionamentos sobre critérios, justificativas e transparência na contratação.

Do ponto de vista prático, o cenário traz riscos de desgaste político e pressões por esclarecimentos formais. A interrupção dos pagamentos com a liquidação do Banco Master não apaga o registro documental das tratativas; pelo contrário, transforma as mensagens em prova que será avaliada por investigadores e por atores políticos. Em ambiente polarizado, a hipótese de prejuízo reputacional é real: aliados, opositores e a opinião pública tendem a cobrar explicações e salvaguardas mais claras entre a atividade privada da família de magistrados e o exercício público no Judiciário. Cabe agora às partes envolvidas e às instituições responsáveis apresentarem versões e documentos que esclareçam a natureza, a necessidade e o controle desse contrato.