O dono do Banco Master, Daniel Vorcaro, afirmou em depoimento ao Supremo Tribunal Federal que sua convivência com o diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, tornou inviável, segundo sua avaliação, a apresentação de uma nova proposta de delação premiada à corporação. A oitiva ocorreu em 27 de agosto, a pedido da defesa, no gabinete do ministro André Mendonça, sem representantes formais da Polícia Federal presentes. Vorcaro relatou que Rodrigues participou de eventos do banco, viajou em companhia de seus familiares e esteve em situações que ele pretendia narrar em eventual colaboração.

Segundo o empresário, a tentativa de reconstruir a estratégia com um novo advogado esbarrou nisso: a proximidade com o atual comando da PF criaria um conflito prático para que a corporação conduzisse ou mesmo recepcionasse sua versão dos fatos. Vorcaro descreveu a relação como cordial — encontros sociais, jantares, eventos de charuto e convites para atividades vinculadas à Fórmula 1 — e disse que o nome do diretor-geral faria parte das menções que pretendia trazer. Também afirmou ter, nos últimos dois anos, aproximado-se de integrantes do que chamou de 'núcleo de poder atual', em situações nas quais buscou proteção.

O depoimento levanta um conjunto de questões institucionais: quando um investigado alega vínculos com o próprio comando responsável por investigações, a percepção pública sobre independência e isenção da apuração fica em xeque. Profissionalmente, isso pode limitar instrumentos de cooperação — como a delação — e forçar deslocamentos de procedimentos para outras instâncias ou ministros, com custo de tempo e eficácia para as investigações. Politicamente, a afirmação de Vorcaro amplia desgaste e cria pressão por esclarecimentos públicos da PF e, se necessário, por medidas que restabeleçam confiança nos processos de investigação.

Do ponto de vista jurídico, a declaração do banqueiro não determina por si só irregularidade, mas altera o tabuleiro: defesa e acusação podem exigir meios alternativos para produzir provas, e autoridades terão de demonstrar blindagem de conflitos. No plano político, resta ao governo e à direção da PF administrar o impacto sobre a imagem institucional — e aos magistrados avaliar se há motivo para questionamentos formais. A eventual impossibilidade de colaboração conduzida pela corporação tem efeito prático: reduz a capacidade de obtenção de provas que dependem de acordos e complica a tramitação de apurações que já estão em andamento.