Quando as urnas ainda estiverem fechadas em boa parte do Brasil, a disputa de 2026 já terá começado do outro lado do mundo. O primeiro voto fora do país será registrado na Nova Zelândia às 16h (horário de Brasília) deste sábado; a jornada só termina às 21h de domingo, no Canadá — um intervalo superior a 29 horas entre o primeiro e o último eleitor. Em números oficiais do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), 918,9 mil brasileiros estão aptos a votar no exterior neste primeiro turno, ante 697,1 mil em 2022; ainda assim esse contingente representa apenas 0,58% dos 158,7 milhões de eleitores do país.
A distribuição do eleitorado no exterior é altamente concentrada. Nenhuma cidade supera Lisboa, que saltou de 45,3 mil aptos em 2022 para 78.833 em 2026 — alta de 74,1%. Por país, os Estados Unidos seguem na liderança, com 265.437 eleitores inscritos, contra 182.986 quatro anos atrás. As dez maiores cidades de votação reúnem 424.714 eleitores, o equivalente a 46,2% do total fora do país; as 20 maiores somam 66,7%. Ao todo, o TSE registra votantes em 186 localidades, enquanto dez países concentram 82% do eleitorado externo. Há, ainda, povoados simbólicos com apenas um ou poucos eleitores — exemplos citados pela Justiça Eleitoral incluem locais como Dacca e Pyongyang, com um título cada; Brazzaville com dois; e Abuja com três.
Esses dados têm efeitos práticos na arena política: embora minoritário em termos percentuais, o eleitorado concentrado em capitais europeias, americanas e asiáticas tem peso simbólico e logístico. Candidatos e partidos precisam calibrar presença consular, campanhas digitais e redes de mobilização em centros como Lisboa, Boston e Tóquio para não perder votos que, em disputas apertadas, podem fazer diferença. Para o próprio TSE, operar urnas por mais de um dia e meio e em fusos distintos impõe requisitos de coordenação, comunicação e segurança que não ocorrem no voto doméstico em um único fuso.
É preciso lembrar, por fim, que o aumento dos títulos no exterior não necessariamente traduz crescimento populacional equivalente: parte do avanço decorre de alistamentos novos, transferências de domicílio eleitoral e atualizações cadastrais. Ainda assim, a concentração em poucas cidades transforma o voto no exterior em elemento estratégico da campanha de 2026 — um fator que os coordenadores eleitorais e as candidaturas não podem subestimar.