A Operação Compliance Zero, deflagrada pela Polícia Federal, colocou Jaques Wagner (PT-BA) no centro de uma crise que já tem reflexos diretos na articulação política do governo no Senado. Fontes do Palácio e do PT dizem que o senador, inicialmente decidido a manter-se na função, mudou de postura após conversas com aliados neste fim de semana e passou a considerar uma licença da liderança. A hipótese ganha força diante do receio interno de que a menção de seu nome no escândalo envolvendo o Banco Master e o empresário Daniel Vorcaro possa contaminar a imagem da campanha de reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e ampliar desgaste político para o Planalto.
A decisão final, segundo pessoas próximas, dependerá de uma conversa entre Wagner e o presidente — prevista para ocorrer nas próximas horas ou até amanhã — e reflete a tentativa do governo de administrar o impacto sem adotar postura taxativa. Pelo histórico de relação entre os dois, Lula prefere que o próprio senador anuncie a licença. O Palácio já ensaia a narrativa pública: não haver prejulgamentos, respeito à independência das investigações da PF e a promessa de que, se não houver comprovação de irregularidade, Wagner poderá reassumir a liderança por meio de uma licença temporária — quadro que o Planalto compara à chamada "Solução Hargreaves".
No plano político, a eventual saída força uma briga por sucessão que ainda não tem consenso. Dois nomes aparecem com força: a senadora Tereza Leitão (PT-PE), vista como conciliadora e com bom trânsito no Senado; e o ex-ministro Camilo Santana (CE), desejado por parte do Palácio por sua capacidade de articulação, embora ele tenha dito estar focado na campanha para reeleger Elmano de Freitas no Ceará. Governistas se dividem entre optar por um perfil técnico e conciliador ou por um aliado de confiança do presidente, o que revela um problema prático para a manutenção da agenda governista no Congresso caso a licença se concretize.
No front jurídico, a defesa de Wagner recorreu ao Supremo Tribunal Federal pedindo a anulação da decisão que autorizou buscas e apreensões, alegando "erros graves" na motivação da operação. Os advogados contestam apreensões de valores em moeda estrangeira — entre eles US$ 49 mil recolhidos em um quarto do Hotel Brasília Palace e quantias em euros e dólares em imóvel em Salvador — e afirmam que a origem dos recursos é lícita, vinculada a diárias e operações bancárias. A disputa entre gestão política e repercussão judicial coloca o Planalto diante do desafio de controlar narrativa e risco político: se confirmado o afastamento, o governo buscará minimizar danos; se Wagner permanecer, a pressão interna e a reação da opinião pública tendem a aumentar.