Romeu Zema vem recalibrando seu discurso para ocupar um espaço à direita que, até aqui, vinha sendo dominado por figuras ligadas ao bolsonarismo. Inspirado pelo sucesso simbólico e retórico do argentino Javier Milei, o pré-candidato do Novo tem transformado temas antes evitados — como a venda de estatais e um ajuste fiscal profundo — em peças centrais de sua oferta política. A estratégia é dupla: diferenciar-se do centro e disputar diretamente o eleitor conservador que hoje acompanha lideranças mais próximas a Bolsonaro.

No plano das imagens e das metáforas há uma opção cuidadosa. Zema rejeita a teatralidade extrema da ‘motosserra’ de Milei, mas usa outro símbolo igualmente agressivo nas redes e na fala pública: a promessa de ‘passar a faca’ nas despesas. É uma escolha calculada: manter tom de ruptura sem adotar a estética do choque que associaria seu nome a um programa populista-autoritário. Em canais de campanha, essa formulação busca agrupar a ressentida crítica ao que ele chama de privilégios do setor público e de empresários com contratos com o Estado.

As propostas são concretas e polêmicas. Zema defende a privatização de empresas como Petrobras e Banco do Brasil, além de reformas administrativa e da Previdência e de uma revisão de benefícios, um pacote que, segundo suas estimativas, resultaria em cerca de R$ 10 trilhões em economia em duas décadas. Ele apresenta o ajuste como condição necessária para acelerar queda de juros e liberar espaço para crescimento econômico. Trata-se de um programa de efeito profundo nas contas públicas — e de alto custo político, dada a sensibilidade social e regional das estatais.

Algumas posições ampliam o potencial de controvérsia. Em debates sobre mudanças nas regras de trabalho, Zema criticou propostas que vêm ganhando apoio amplo no Congresso por considerá-las oportunistas em ano eleitoral e defendeu contratos com jornadas variáveis à americana. Em outra ocasião, provocou críticas ao relativizar a proibição estrita do trabalho infantil ao questionar visões da esquerda sobre trabalho e aprendizagem. Essas declarações expõem um cálculo político arriscado: reforçam o perfil liberal radical que pode atrair um núcleo duro, mas afastam eleitores moderados e sindicatos.

Politicamente, a conversão ao ultraliberalismo tem custos e vantagens. Por um lado, pode oferecer a Zema uma narrativa clara e diferenciada frente aos partidos tradicionais e ao bolsonarismo, capazes de mobilizar um eleitorado descontente com o status quo fiscal. Por outro, a ênfase em privatizações e cortes drásticos tende a gerar resistência institucional e social — no Congresso, entre servidores e em setores dependentes de políticas públicas — o que exige articulação política que o discurso puramente técnico dificilmente garante. Em última instância, a aposta de Zema é uma tentativa de redefinir a disputa à direita; o desafio será transformar confronto retórico em coalizões viáveis e políticas públicas que resistam ao custo político imediato.