Em evento da Confederação Nacional do Comércio (CNC) em Brasília, o pré-candidato do Novo, Romeu Zema, anunciou proposta para cortar o pagamento do Bolsa Família a beneficiários que recusarem sucessivas ofertas de emprego. Zema explicou que a suspensão ocorreria a partir da terceira recusa e incluiria exigência de conclusão do ensino fundamental, do ensino médio ou de formação profissional para quem não estiver trabalhando. O presidenciável também afirmou que pretendia usar tecnologia para monitorar os cadastrados e anunciou um bônus de R$ 5 mil como incentivo para quem aceitar o emprego.

A ideia combina apelo à responsabilização com medidas que, na prática, apresentam desafios administrativos e jurídicos. A verificação de ofertas de trabalho, a definição do que conta como recusa justificável e o monitoramento das condições individuais — como cuidado de crianças ou dependentes — exigiriam sistemas de controle robustos e integração de bases de dados. Zema disse que excluiria pessoas que cuidam de filhos ou idosos, mas não detalhou critérios operacionais. Especialistas em políticas públicas costumam advertir que condicionalidades dessa magnitude podem gerar exclusões indevidas e que restrições ao benefício podem ser questionadas no Judiciário.

Politicamente, a proposta busca colocar Zema no campo de candidatos que defendem maior rigor nas transferências sociais, tema que costuma ressoar com eleitores conservadores e de centro preocupado com eficiência do gasto público. Ao mesmo tempo, a medida tem potencial de desgastar o candidato perante parcelas do eleitorado de baixa renda e de provocar reação de adversários que verão na iniciativa risco de exclusão social. Em um cenário pré-eleitoral, a aposta é de alto risco: pode cristalizar apoio de quem exige condicionalidade, mas também ampliar críticas sobre falta de garantia efetiva de acesso ao trabalho em regiões com escassez de vagas.

No mesmo discurso, Zema relacionou medidas tarifárias dos Estados Unidos às posições do governo federal, alertou para dependência comercial em relação à China, criticou juros altos e atacou estatais como instrumentos de apadrinhamento político, declarando intenção de privatizar estatais que, segundo ele, não são "sagradas". O presidenciável também propôs mudanças nas regras de nomeação para ministros do Supremo e o fim de decisões monocráticas. O pacote de propostas sinaliza linha dura pró-mercado e confronto institucional — uma agenda clara, porém sujeita a contestação técnica e a custos políticos que ainda não foram quantificados.