Durante sabatina televisiva, Romeu Zema procurou justificar a situação fiscal de Minas Gerais recorrendo à narrativa de dívida herdada e aos efeitos de juros federais que comparou a taxas de “agiotas”. O ex-governador ressaltou pagamentos feitos na gestão — incluindo R$ 23 bilhões a aposentados e R$ 13 bilhões ao governo federal — e afirmou que o endividamento cresceu em valores absolutos, mas diminuiu em relação ao tamanho da economia estadual. O problema é que o argumento não respondeu ao pedido central: qual é o plano fiscal concreto que Zema aplicaria a um balanço público federal já tensionado?

O tom da sabatina alternou entre defesa de um programa liberal em privatizações e ataques ao Judiciário. Zema voltou a criticar o Supremo Tribunal Federal e posicionou-se contra as condenações relacionadas aos atos de 8 de janeiro, defendendo anistia para os envolvidos ou, na hipótese, a criação de um tribunal “que não seja político”. A proposta expõe contradição política relevante: ao mesmo tempo em que busca afinar discurso com eleitores liberais e pró-mercado, o candidato sinaliza disposição para enfraquecer mecanismos de responsabilização judicial — postura que pode transformar legitimidade em custo político concreto.

No campo econômico, Zema repetiu compromissos já conhecidos: privatizações de estatais consideradas “subaproveitadas”, como a Copasa, e recomposição salarial anual pela inflação. A defesa da agenda liberal se apoia em sua gestão em Minas; mas as omissões também chamam atenção. Questionado sobre a Operação Rejeito, que investigou fraudes ambientais e exploração ilegal de minério durante sua gestão, o candidato negou conhecimento e afirmou que a Controladoria já apurava o caso. A resposta afasta a transparência esperada de um postulante com discurso de responsabilidade fiscal e governança, deixando em aberto a prestação de contas à opinião pública e a investidores.

A leitura política desse desempenho é clara: Zema mistura credenciais de gestor pró-mercado com vagas soluções fiscais e ataques institucionais que complicam sua narrativa para 2026. O tom agressivo contra o Judiciário e a promessa de anistia podem atrair parte do eleitorado bolsonarista, mas também acendem alerta entre moderados e eleitores preocupados com segurança jurídica. Se a campanha pretende convencer além do núcleo ideológico, será preciso transformar retórica em propostas detalhadas — sobretudo sobre como equilibrar contas num cenário de dívida pública elevada — ou assumir o custo político de uma aposta mais conflitiva nas instituições.