No Encontro Nacional do Novo em São Paulo, Romeu Zema apresentou um pacote de propostas que combina agenda econômica liberal e ataques institucionais. Entre os compromissos mais contundentes está a intenção de privatizar a Petrobras e o Banco do Brasil, com o objetivo declarado de direcionar os recursos para investimentos em rodovias, ferrovias, hidrovias e portos — formato que, segundo ele, resolveria gargalos logísticos que travam a competitividade brasileira.
A proposta de vender duas das maiores empresas estatais do país coloca na mesa uma discussão prática e política complexa. Do ponto de vista fiscal, a ideia de converter ativos em caixa para obras agrada ao discurso de responsabilidade e crescimento, mas enfrenta obstáculos relevantes: avaliação e desinvestimento dessas companhias exigiriam calendário longo, arranjos regulatórios e aceitação do mercado, além de riscos de descontinuidade em áreas estratégicas. Zema recorreu à experiência administrativa em Minas Gerais — lembrando investimentos privados e geração de empregos — para dar viabilidade política à mensagem, mas não detalhou mecanismos para evitar perda de controle sobre serviços essenciais ou impacto social imediato.
No terreno institucional, o ex-governador endureceu o discurso contra o Supremo Tribunal Federal e prometeu agir caso a direita conquiste maioria no Senado: citou a busca por impeachment do ministro Alexandre de Moraes e propostas como o fim das decisões monocráticas e a extinção do foro privilegiado. A combinação de pressões ao Judiciário e a promessa de reformas administrativas sinaliza uma estratégia dual: mobilizar a base conservadora liberal e marcar distância clara do atual governo. Esse tipo de ofensiva, porém, expõe o candidato a críticas sobre desrespeito a freios e contrapesos e aumenta o custo político de transações necessárias em um Congresso fragmentado.
Politicamente, a agenda tenta ocupar um espaço de direita liberal que combina liberalização econômica com postura dura em segurança e críticas ao governo Lula. É material para atrair eleitores insatisfeitos com a situação econômica e com percepções de insegurança, mas seu sucesso depende de tradução prática: convencer o mercado, articular apoio no Legislativo e mitigar reações de setores que valorizam presença estatal em setores estratégicos. A narrativa de vender estatais para investir em logística pode soar coerente, mas também abre margem para oposição que a apresentará como venda de patrimônio nacional.
No curto prazo, a fala de Zema eleva seu perfil e coloca no debate de 2026 uma agenda de privatizações e reforma do Judiciário. No médio prazo, porém, a execução dessas propostas exigirá enfrentamentos políticos e técnicos que testarão tanto a capacidade de articulação do candidato quanto a resiliência das instituições. Para o eleitor, o anúncio funciona como retrato de prioridades: crescimento via mercado, redução do Estado e choque institucional — uma combinação que complica a narrativa oficial do governo e acende alerta sobre como será a disputa presidencial.